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Tendências na anestesia: ler o percurso por trás do valor atual

Por Carlos Leitão, médico veterinário anestesista e cofundador da VetNoa6 min de leitura

Quando me chamam para ajudar numa anestesia, o motivo é muitas vezes um valor que já preocupa a equipa. Pode ser uma frequência cardíaca baixa, uma pressão arterial diminuída ou um dióxido de carbono no final da expiração (EtCO₂) elevado.

Nesse momento, há que avaliar o paciente e responder ao problema presente. Mas faço também outra pergunta, que para mim pesa muito: como chegámos aqui?

O valor atual mostra um instante. A sequência anterior pode ajudar a perceber a direção da alteração, se ela persiste e como se relaciona com o procedimento. É esta leitura ao longo do tempo que defendo nas aulas e na prática clínica.

Um pedido de ajuda com EtCO₂ a 75 mmHg

Num episódio da minha prática, fui chamado a uma anestesia com EtCO₂ de 75 mmHg no monitor. Na equipa estava uma colega com experiência em acompanhamento anestésico.

Foi esse o valor que encontrei quando cheguei, e não havia uma sequência documentada. Por isso, não sei quando começou a alteração, a que velocidade evoluiu nem se a subida foi contínua. Uma subida gradual é possível, mas é só uma hipótese: não há dados que reconstruam assim aquele episódio.

O caso deixa-me uma pergunta: reconhecemos as alterações enquanto evoluem, ou só quando o valor atual preocupa o bastante para alguém pedir ajuda?

Na minha experiência, o pedido pode chegar depois de várias tentativas de resolver a situação. Quero perceber que informação havia e como foi interpretada, sem julgar quem pediu ajuda.

Um exemplo ilustrativo

Imaginemos a sequência seguinte, construída só para explicar o raciocínio. Os números são ilustrativos e não vêm de medições do episódio que descrevi.

Tempo desde a primeira observação EtCO₂
0 minutos 40 mmHg
20 minutos 44 mmHg
25 minutos 46 mmHg
30 minutos 50 mmHg
404448520102030Minutos desde a primeira observaçãoEtCO₂ (mmHg)40444650
Valores ilustrativos, não são dados de um paciente. As linhas só ligam as leituras: o que aconteceu entre elas não se sabe.

Se olharmos só para o último número, perdemos parte da informação. Cada valor é mais alto do que o anterior, mas os intervalos entre medições são desiguais. A tabela não mostra tudo o que aconteceu entre elas, nem permite extrapolar uma subida futura.

Por si só, esta sequência não define uma complicação nem uma indicação para tratar. O significado depende do paciente, da ventilação, da técnica anestésica e da fiabilidade da medição. O exemplo serve para tornar visível uma direção que merece avaliação.

Da tendência à avaliação

Uma mudança persistente deve levantar perguntas. A medição é credível? A alteração é esperada neste contexto? O que mudou entretanto?

A AAHA recomenda interpretar os monitores em conjunto com a avaliação clínica do paciente 1. Perante um EtCO₂ crescente, as suas orientações incluem considerar a profundidade anestésica e possíveis problemas de reinalação ou do circuito 2.

Reconhecer uma subida não aponta, por si, a causa. E baixar um número sem compreender o mecanismo pode deixar o problema por resolver.

A ideia é começar a avaliação do contexto antes de dependermos só de um valor extremo. Observar, verificar, pedir ajuda ou tratar continua a exigir julgamento clínico.

Ajuda situar a tendência entre os acontecimentos do caso. Por exemplo: administração de fármacos, ajustes da manutenção anestésica ou da ventilação, mudanças de posição e fases do procedimento.

A proximidade no tempo pode orientar as perguntas, mas não prova causalidade. Uma alteração depois de uma intervenção pode estar ligada a ela ou ter outra explicação.

Por isso, um registo útil junta valores, acontecimentos e respostas. Sem horas, podemos lembrar-nos de que demos um fármaco e de que a pressão mudou, mas perder a ordem entre os dois momentos ou o tempo que os separou.

O EtCO₂ interpreta-se com a curva capnográfica, a frequência e o padrão respiratórios, o circuito e os restantes dados clínicos disponíveis. As recomendações da AAHA distinguem a avaliação da ventilação, da oxigenação e da função cardiovascular 1.

Ler tudo em conjunto não obriga a que todas as variáveis mudem no mesmo sentido, e a primeira a alterar-se muda de paciente para paciente e de situação para situação.

O objetivo é juntar informação coerente para compreender o caso. Quando os dados se contradizem, a discrepância também merece verificação. Uma alteração isolada pode ser real ou vir de um problema de medição, e a sequência, sozinha, não resolve essa dúvida.

Manter a sequência à vista

Sem registos ou ecrãs de tendências, comparar o presente com o passado depende muito da memória. Num procedimento longo, temos de recordar valores, intervenções e respostas anteriores enquanto continuamos a acompanhar o paciente.

Uma folha preenchida com horas permite recuperar parte dessa sequência. Os ecrãs de tendências do monitor, quando existem, podem acrescentar informação. Em ambos os casos, é preciso conhecer a escala de tempo e ver onde há lacunas.

Dois valores afastados no tempo não mostram que houve estabilidade entre eles. Uma interrupção no registo é uma lacuna, por isso convém resistir a preenchê-la de cabeça, como se nada tivesse acontecido.

A leitura no tempo continua depois de intervirmos. Devemos registar o que foi feito, a que horas e como o paciente evoluiu. A tendência pode ajudar a ver se a alteração persistiu, estabilizou ou mudou de sentido. Sozinha, não prova que a intervenção causou a resposta, mas guarda a informação de que a avaliação precisa.

Uma melhoria num só momento conta apenas parte da história, por isso continuamos a observar o paciente e a interpretar o que vem a seguir.

A dificuldade em acompanhar esta evolução foi um dos motivos que me levaram a criar a VetNoa. Queremos apoiar a captura de dados dos monitores existentes e a organização da informação ao longo do caso, para que a equipa tenha a sequência mais à mão.

Nada disto demonstra que a VetNoa consiga prever deterioração. A qualidade dos dados, as lacunas e a interpretação clínica continuam a contar. Procuramos ajudar a compreender o percurso do paciente, e as decisões continuam a ser responsabilidade da equipa.

Perguntas para quando algo muda

São perguntas de apoio à formação: não substituem a avaliação do paciente nem são um protocolo de tratamento.

  • O valor é credível e compatível com a avaliação do paciente?
  • Que medições anteriores temos, e a que horas foram obtidas?
  • A alteração é isolada, repetida ou persistente?
  • Que acontecimentos ou intervenções houve nesse intervalo?
  • O que mostram a curva e os restantes parâmetros disponíveis?
  • Há lacunas que impeçam reconstruir a evolução?
  • A situação atual exige pedir ajuda ou intervir?
  • Depois de agir, o que mudou, e ficou registado?

Referências

  1. 1.Grubb T, Sager J, Gaynor JS, et al. 2020 AAHA Anesthesia and Monitoring Guidelines for Dogs and Cats. J Am Anim Hosp Assoc. 2020;56(2):59-82. Section: Physiologic monitoring. aaha.org
  2. 2.Grubb T, Sager J, Gaynor JS, et al. 2020 AAHA Anesthesia and Monitoring Guidelines for Dogs and Cats. J Am Anim Hosp Assoc. 2020;56(2):59-82. Section: Hypoventilation. aaha.org