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Sinais de alerta na anestesia: interpretar as relações entre os dados

Por Carlos Leitão, médico veterinário anestesista e cofundador da VetNoa6 min de leitura

Um sinal de alerta pode ser um número claramente fora dos limites. Também pode ser uma mudança gradual, uma discrepância entre medições ou uma resposta desajustada ao contexto do paciente.

Na minha prática, vejo dificuldades em relacionar frequência cardíaca, pulso, pressão arterial e oxímetro. Cada variável tem utilidade, mas nenhuma conta sozinha a história toda. Antes de escolher uma intervenção, há que perceber o que merece atenção e se a informação é credível. Depois, lê-se o conjunto.

Este texto é educativo e não é um protocolo de diagnóstico ou tratamento, por isso deve ser usado em articulação com a avaliação clínica e os protocolos do centro.

Frequência cardíaca baixa depois de um agonista alfa-2

Depois de um agonista alfa-2, como a dexmedetomidina, a descida da frequência cardíaca pode ser um efeito esperado. Para a interpretar, é preciso saber que fármaco foi dado, quando e em que condições. Sem isso, pode gerar preocupação ou decisões pouco ajustadas ao caso.

Mas um efeito esperado pode, ainda assim, causar dano. Estudos em cães mostram alterações cardiovasculares com dexmedetomidina, incluindo redução do débito cardíaco. Uma pressão arterial preservada, por si só, não garante perfusão adequada 1,2.

Por isso, "a frequência está baixa?" é só a primeira pergunta. Interessa o valor basal, a evolução, o ritmo, a pressão, o pulso e o resto da avaliação.

Não proponho uma faixa de frequência cardíaca segura após dexmedetomidina que sirva para todos os pacientes. O mesmo número pode ter significados diferentes conforme o paciente, a medicação e a fase do procedimento. O contexto ajuda a decidir, mas não justifica tratar automaticamente nem deixar automaticamente de estar preocupado.

Quando o pulso, a pressão e o oxímetro não batem certo

Uma alteração do pulso deve ser relacionada com os outros dados cardiovasculares. A AAHA inclui a avaliação do pulso periférico e do tempo de repleção capilar como elementos complementares na apreciação de fluxo sanguíneo inadequado 3. A palpação continua a não ser uma medição de pressão arterial, e um valor isolado do monitor não substitui a avaliação clínica.

Imagine que a pressão muda e o pulso parece diferente. Confirme as observações e procure uma explicação coerente. Se os dados parecem discordantes, encare a discrepância e resista a resolvê-la escolhendo o valor mais tranquilizador. A informação pode estar incompleta, pode haver um problema de medição, ou podemos estar a observar aspetos diferentes da situação cardiovascular. Mantenha estas hipóteses em aberto.

O índice de perfusão do oxímetro, habitualmente apresentado como IP ou PI, pode acrescentar informação. Não é uma medição direta da pressão arterial e, sozinho, também não prova que a perfusão sistémica é adequada.

Um estudo acompanhou 22 cadelas saudáveis submetidas a ovariohisterectomia. O PI diminuiu ao longo do procedimento sem acompanhar de forma consistente os outros indicadores avaliados. Os autores concluíram que um PI baixo, naquele contexto, podia não representar hipoperfusão periférica 4.

Este resultado desfaz o raciocínio fácil "o índice baixou, logo a pressão baixou". O índice continua a merecer atenção, mas a sua interpretação tem limites. Relacione a alteração com a qualidade do sinal, a avaliação do paciente, a pressão e o contexto farmacológico. O IP pode motivar uma verificação, mas por si só não aponta uma causa nem um tratamento.

Por vezes o oxímetro dá informação instável ou perde o sinal. Há aí um problema de disponibilidade ou de fiabilidade que merece atenção. Não podemos assumir que o paciente está estável só porque deixou de haver leitura, nem concluir automaticamente que há hipotensão ou hipoxemia. O paciente e a medição avaliam-se em conjunto. As recomendações de monitorização destacam a integração dos dados instrumentais com a avaliação clínica 5.

Uma SpO₂ baixa e uma SpO₂ indisponível são situações diferentes, mesmo quando ambas exigem verificação. Uma dificuldade técnica não nos deve fazer desvalorizar um problema clínico, e uma suspeita clínica não transforma um sinal deficiente numa medição válida.

Mudanças graduais e EtCO₂ a subir

Considero que a evolução gradual é frequentemente desvalorizada. Uma pequena descida da pressão ou subida do EtCO₂ pode parecer pouco relevante num momento e ganhar significado quando se repete.

Para comparar, são precisos horários e medições credíveis. Valores isolados, separados por intervalos longos, podem deixar escapar o que aconteceu entre eles.

Uma tendência persistente pede avaliação no contexto, embora nem todo o movimento exija correção. Pergunte se houve uma alteração prevista na anestesia, no procedimento ou na ventilação. Pergunte se o paciente tem outros sinais concordantes.

O inverso também vale. Perante uma alteração aguda preocupante, não espere por uma tendência. A situação presente pode exigir resposta imediata, mesmo sem uma sequência anterior disponível.

A subida do EtCO₂ é um bom exemplo, porque pode levar a uma resposta dirigida apenas ao número. A interpretação tem de considerar o paciente, a ventilação, o circuito e a medição. As orientações da AAHA para a hipoventilação incluem avaliar a profundidade anestésica e investigar causas de reinalação, como problemas no circuito ou no absorvente de CO₂, conforme o sistema utilizado 6.

Se quem monitoriza tem acesso à curva capnográfica, observá-la faz parte da avaliação. Analisar a curva exige mais do que ver o valor numérico. Escolher uma explicação exige mais do que uma variável: reúna a informação que mostre por que razão o EtCO₂ mudou e, depois, avalie a resposta ao que for feito.

Mais dados, a mesma atenção

Quanto mais informação clínica relevante houver, mais elementos podemos ter para compreender o paciente. Acrescentar números, por si só, não garante o controlo de todas as condições nem maior segurança. É preciso saber o que cada variável mede, os seus limites e como se relaciona com as outras. Dados errados, horários desalinhados e valores antigos apresentados como atuais podem dificultar a interpretação.

A falta de uma variável também tem de ser visível, porque um campo vazio não confirma que está tudo normal.

Interpretar estas relações exige disponibilidade. Na realidade das equipas, quem acompanha a anestesia pode estar a responder ao cirurgião, a preencher a folha ou a procurar informação noutro monitor.

O próprio registo manual ocupa atenção: é preciso localizar a variável, encontrar o horário e marcar o ponto certo no gráfico. Baseio-me na minha experiência, sem comparação quantitativa entre métodos. Mostrar a sequência de forma acessível pode apoiar este trabalho, mas alguém continua a ter de avaliar o paciente e agir.

A VetNoa está a ser desenvolvida para apoiar a captura de dados dos monitores existentes e a sua organização ao longo do caso. Lê apenas os números apresentados no ecrã do monitor. Não analisa curvas: capnograma, ECG, pletismograma ou ansas de espirometria. A análise de curvas é um objetivo para mais tarde. A captura é periódica, em vez de contínua, por isso podem ocorrer acontecimentos entre imagens que ficam por registar. A qualidade da captura e as lacunas têm de ser tidas em conta. O objetivo é ajudar a equipa a consultar e integrar a informação disponível. Não afirmamos que a VetNoa supera a atenção humana ou substitui a vigilância clínica. Não tem capacidade validada para prever deterioração.

Perguntas para rever um caso

  • O valor atual é credível e corresponde à situação presente?
  • Como evoluiu, e que dados faltam nesse intervalo?
  • Que fármacos foram administrados, e quando?
  • O pulso, o ritmo, a pressão e a avaliação clínica são coerentes entre si?
  • A alteração do IP/PI está a ser interpretada como informação complementar?
  • Estamos a distinguir uma SpO₂ baixa de um sinal indisponível?
  • O que mostram as curvas a que quem monitoriza tem acesso?
  • A situação exige ajuda ou intervenção imediata?
  • O que foi feito, e como evoluiu o paciente depois?

Referências

  1. 1.Kellihan HB, Stepien RL, Hassen KM, Smith LJ. Sedative and echocardiographic effects of dexmedetomidine combined with butorphanol in healthy dogs. J Vet Cardiol. 2015;17(4):282-292. doi.org/10.1016/j.jvc.2015.08.008
  2. 2.Huuskonen V, Restitutti F, Raekallio M, et al. Cardiovascular effects of dobutamine, norepinephrine and phenylephrine in isoflurane-anaesthetized dogs administered dexmedetomidine-vatinoxan. Vet Anaesth Analg. 2022;49(6):546-555. doi.org/10.1016/j.vaa.2022.07.007
  3. 3.Grubb T, Sager J, Gaynor JS, et al. 2020 AAHA Anesthesia and Monitoring Guidelines for Dogs and Cats. J Am Anim Hosp Assoc. 2020;56(2):59-82. Section: Hypotension. aaha.org
  4. 4.Teixeira LG, Martins LR, Schimites PI, et al. Peripheral perfusion index does not accurately reflect hypoperfusion in healthy dogs undergoing elective ovariohysterectomy. Vet J. 2018;240:27-30. doi.org/10.1016/j.tvjl.2018.09.003
  5. 5.Grubb T, Sager J, Gaynor JS, et al. 2020 AAHA Anesthesia and Monitoring Guidelines for Dogs and Cats. J Am Anim Hosp Assoc. 2020;56(2):59-82. Section: Physiologic monitoring. aaha.org
  6. 6.Grubb T, Sager J, Gaynor JS, et al. 2020 AAHA Anesthesia and Monitoring Guidelines for Dogs and Cats. J Am Anim Hosp Assoc. 2020;56(2):59-82. Section: Hypoventilation. aaha.org