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Monitorizar a anestesia quando a equipa é pequena

Por Carlos Leitão, médico veterinário anestesista e cofundador da VetNoa6 min de leitura

Numa clínica, um procedimento pode envolver três pessoas: um cirurgião, um enfermeiro e um auxiliar. No papel, cada um sabe o que lhe cabe. Depois, a meio da cirurgia, o cirurgião precisa de material, o auxiliar já está ocupado e quem está a monitorizar é chamado a ajudar.

Vejo isto em contextos clínicos diferentes. Quem acompanha a anestesia pode também preparar o animal e organizar a mesa. Pode abrir material e responder ao que vai surgindo. Por vezes somam-se tarefas sem ligação imediata ao procedimento: atender chamadas, escrever altas, verificar stocks, lavar material.

Pedir mais atenção passa ao lado do problema: a mesma pessoa está a responder a várias exigências ao mesmo tempo. Quando todas parecem urgentes, alguma coisa fica por fazer.

O registo é o primeiro a ceder

Na minha experiência, a documentação é muitas vezes a primeira tarefa interrompida. Quem monitoriza continua a tentar acompanhar o paciente e ajudar a equipa, mas deixa de conseguir anotar com regularidade.

Há aqui duas dificuldades diferentes, que podem coexistir. Uma é perder informação sobre o que aconteceu, e a outra é perder a oportunidade de ver uma alteração enquanto acontece.

Uma folha incompleta não prova que o paciente ficou sem observação. Da mesma forma, uma série de valores gravados automaticamente não prova que alguém os interpretou ou respondeu quando era preciso. Documentar, observar e ter capacidade de intervir são coisas distintas.

Quem é responsável pela anestesia

As recomendações de 2025 da ACVAA incluem um profissional dedicado à anestesia. Também sublinham a presença de pessoal treinado e vigilante no período perianestésico 1. Essa referência mantém o seu valor, mesmo quando é difícil de cumprir numa equipa pequena.

A responsabilidade só se exerce com condições reais para isso. A pessoa designada pode estar, ao mesmo tempo, a dar assistência cirúrgica ou a tratar de tarefas de outras áreas. Nesse caso, atribuir-lhe a função no papel deixa o conflito por resolver.

A categoria profissional é só uma parte: contam também a formação, as competências e a supervisão. A atribuição de funções tem de respeitar as regras locais. As recomendações da AAHA dão destaque à formação da equipa 2. Incluem o equipamento, a interpretação da monitorização e a preparação para emergências.

Monitorizar envolve observar o paciente, interpretar os dados disponíveis e reconhecer quando é preciso agir. A AAHA recomenda combinar a avaliação clínica direta com os monitores 3. Recomenda acompanhar a função respiratória e cardiovascular, a profundidade anestésica e a temperatura. O equipamento dá informação importante, mas não faz todo esse trabalho pela equipa. Um valor no ecrã tem de ser lido no contexto do paciente e do procedimento.

O cirurgião pode contribuir para essa avaliação, mas também tem a atenção presa ao ato cirúrgico. Na minha leitura prática, um monitor à vista de várias pessoas não substitui uma responsabilidade explícita pela anestesia.

O que pode esperar e o que exige ajuda

Preparar material e equipamento antes da indução pode reduzir os pedidos previsíveis. Pode ainda ser precisa ajuda inesperada durante o procedimento, e a preparação não cria uma quarta pessoa.

Uma lista de boas práticas pode pressupor que há sempre alguém livre para atender chamadas, abrir material ou render quem monitoriza. Numa equipa de três, todos podem já estar ocupados, e aí a lista serve de pouco.

Mais vale partir do trabalho real. Que tarefas se acumulam? Quais podem esperar? Quais exigem duas pessoas ao mesmo tempo? O objetivo é tornar o conflito visível, sem o atribuir a falta de organização ou de empenho de quem está na sala.

As interrupções são de vários tipos. Abrir material necessário ao procedimento é diferente de atualizar a lista de stocks. Esta distinção ajuda a equipa a reconhecer os pedidos que podem ser adiados, mesmo que a falta de pessoas se mantenha.

Como proposta para discussão, faz sentido rever uma coisa: que tarefas administrativas ou de manutenção continuam a ser atribuídas a quem monitoriza? Por vezes falta alguém para as receber, e algumas terão simplesmente de aguardar.

Quando a necessidade surge durante a cirurgia, o conflito é mais difícil: a equipa tem de o comunicar e avaliar em função da situação clínica. Uma checklist só funciona com as pessoas que o centro realmente tem.

Antes do procedimento, há uma pergunta que ajuda: o que acontece à vigilância se a pessoa responsável tiver de ajudar o cirurgião? A resposta pode mostrar que os recursos previstos ficam aquém de determinadas exigências. Nesse caso, há que discutir a organização e as condições para realizar o procedimento. Assumir que a mesma pessoa vai absorver tudo não é solução.

Se houver transferência de responsabilidade, proponho que seja explícita e aceite por quem a recebe. Se não há substituto, não devemos escrever um protocolo como se houvesse. Nada disto é um protocolo clínico universal, e cada centro terá de o adaptar à sua realidade.

A recuperação

A necessidade de vigilância continua depois de a cirurgia terminar. A AAHA recomenda manter a atenção ao paciente em recuperação 3. Isso inclui pessoal treinado e acompanhamento dos parâmetros relevantes.

Numa equipa pequena, este período pode coincidir com a limpeza da sala, a preparação do caso seguinte e outros pedidos. Por isso, a recuperação deve entrar na discussão dos recursos desde o início. Quem acompanha o paciente? Como passa a informação?

De pouco serve definir quem fica junto do monitor durante a cirurgia se, depois, essa responsabilidade fica por definir.

Onde a tecnologia pode ajudar

A captura automática pode ajudar a preservar os dados que o equipamento apresenta e poupar parte do trabalho de transcrição. Uma sequência temporal pode facilitar a revisão do caso.

A utilidade depende da qualidade da captura e da possibilidade de verificar erros e lacunas. Não se pode assumir que um sistema digital documenta tudo, nem que interpreta sempre corretamente o que recebe.

A VetNoa está a ser desenvolvida para apoiar a captura de dados dos monitores já existentes e a organização da informação ao longo do caso. Esse apoio não traz uma pessoa adicional: não há mais ninguém para avaliar o paciente, ajudar na cirurgia ou executar uma intervenção. A tecnologia pode aliviar tarefas concretas, mas a equipa continua a precisar de condições para observar, interpretar e agir.

Perguntas para discutir em equipa

Adaptem-nas ao contexto do centro: não são um protocolo que garanta segurança.

  • Quem tem responsabilidade explícita pela anestesia em cada fase?
  • Que tarefas simultâneas são atribuídas a essa pessoa?
  • Quais dessas tarefas podem ser adiadas?
  • O que acontece à vigilância quando o cirurgião precisa de ajuda?
  • Há uma possibilidade real de transferir a responsabilidade para alguém com competências adequadas?
  • Os recursos previstos são compatíveis com as exigências do caso?
  • Quem acompanha a recuperação e recebe a informação?
  • O registo permite distinguir os dados disponíveis, as lacunas e as intervenções?

Referências

  1. 1.Bailey K, Briley J, Duffee L, et al. The American College of Veterinary Anesthesia and Analgesia Small Animal Anesthesia and Sedation Monitoring Guidelines 2025. Vet Anaesth Analg. 2025;52(4):377-385. doi.org/10.1016/j.vaa.2025.03.015
  2. 2.Grubb T, Sager J, Gaynor JS, et al. 2020 AAHA Anesthesia and Monitoring Guidelines for Dogs and Cats. J Am Anim Hosp Assoc. 2020;56(2):59-82. Section: Staff education and safety training. aaha.org
  3. 3.Grubb T, Sager J, Gaynor JS, et al. 2020 AAHA Anesthesia and Monitoring Guidelines for Dogs and Cats. J Am Anim Hosp Assoc. 2020;56(2):59-82. Section: Physiologic monitoring. aaha.org