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Alarmes do monitor e apoio à decisão: o que faz um copiloto de anestesia?

Por Carlos Leitão, médico veterinário anestesista e cofundador da VetNoa6 min de leitura

Muitas vezes é um alarme que nos faz voltar a olhar para o monitor. Na minha experiência, isso acontece no meio de outras tarefas: responder ao cirurgião, preencher registos ou acompanhar outra parte do procedimento.

O aviso cumpre uma função importante. Mas, quando olhamos para o ecrã, surgem outras perguntas. A alteração é real? O sinal é credível? O que mudou no paciente? Que informação temos de verificar?

É nessa passagem, entre reconhecer o aviso e compreender o caso, que faz sentido falar de apoio à decisão. A ideia é ajudar a relacionar a informação, enquanto a avaliação e a decisão ficam com a equipa clínica.

O que os alarmes já fazem

Um alarme por limite assinala que a medição cumpriu uma condição configurada. Imagine-se um limite inferior de frequência cardíaca: o aviso depende de essa condição ser atingida.

Ainda assim, seria injusto reduzir todos os monitores a um mínimo e um máximo. O manual do Mindray ePM 12M Vet descreve alarmes fisiológicos e técnicos, com diferentes prioridades 1. As funcionalidades variam de equipamento para equipamento.

Por isso, provar vantagem sobre os monitores exige mais do que vários níveis de gravidade num software. Uma comparação útil olha para o equipamento concreto e para o que cada sistema acrescenta à prática.

Há também o que acontece antes do alarme. A frequência cardíaca pode descer ao longo de várias observações antes de ultrapassar o limite. Reconhecer essa evolução pode motivar uma avaliação antes do aviso.

Só que algumas alterações são bruscas. Há acontecimentos agudos e há situações em que os dados disponíveis não mostram qualquer sinal anterior. A vigilância não pode assentar na promessa de que tudo será antecipável.

Projetar uma linha descendente para o futuro também fica aquém. A tendência pode estabilizar ou inverter-se, ou pode acompanhar uma alteração prevista no contexto anestésico. O seu significado tem de ser interpretado.

Interpretar antes de decidir

Um apoio à decisão procura organizar os dados relevantes e relacioná-los com o contexto, para que quem está a monitorizar consiga definir o que verificar. Na anestesia, isso pode incluir a sequência dos valores e a medicação administrada. Pode incluir ainda os acontecimentos do procedimento e a qualidade das medições.

A AAHA recomenda combinar os dados dos monitores com a avaliação clínica do paciente 2. Com um software pelo meio, essa integração continua a ser necessária.

Uma explicação proposta é uma hipótese que a avaliação clínica pode confirmar ou excluir, e uma recomendação continua a ser só uma recomendação até alguém a executar. Cabe à equipa avaliar se cada sugestão é pertinente e registar o que efetivamente fez.

Uma das dificuldades que encontro é distinguir uma alteração clínica de uma medição pouco fiável. O sistema deve ajudar a tornar essa dúvida explícita, sem a resolver com mais certeza do que os dados justificam.

Pense-se numa pressão média inferior à diastólica, no mesmo conjunto de medições. É uma inconsistência e obriga a verificar a informação. Pode haver erro na leitura, na identificação do canal ou na associação dos valores, e descobrir qual é a origem exige mais do que o conjunto por si só.

SpO₂ baixa com índice de perfusão baixo é outro caso. Não permite concluir que o problema é apenas do sensor. A alteração pode envolver o paciente, a medição ou ambos. O índice de perfusão não deve servir, isolado, para descartar um valor preocupante 3.

Tendências e predição

Uma tendência descreve a evolução observada. Um sistema preditivo tenta estimar um acontecimento futuro dentro de um horizonte temporal definido.

As tendências podem ser informação relevante para investigar a predição, mas demonstrar essa capacidade exige mais. É preciso definir o evento e avaliar que antecedência é útil. É preciso também medir os erros, incluindo avisos incorretos e acontecimentos não detetados.

A validação preditiva exige mais do que criar níveis de alerta ou reconhecer uma subida. Interessa-me avançar nessa direção, como motivação de investigação, mas isso não demonstra que a VetNoa já preveja deterioração.

Como descrevemos a VetNoa

A VetNoa é uma plataforma de apoio à monitorização anestésica, ainda em desenvolvimento. Usa a câmara de um telemóvel para fotografar monitores existentes e lê apenas os números que aparecem no ecrã. Não analisa curvas, como as de ECG, capnografia ou espirometria.

A captura é automática e adapta-se ao nível de alerta atribuído pelo sistema aos dados disponíveis. No nível Estável do sistema, faz-se cerca de 20 em 20 segundos, em Vigilância cerca de 10 em 10 segundos e em Alto cerca de 5 em 5 segundos. Em Crítico, faz-se ao ritmo máximo a que o sistema consegue processar uma leitura, que continua a ser periódico, nem instantâneo nem contínuo. Em alternativa, o utilizador pode fixar um intervalo ou pedir uma leitura manualmente.

A VetNoa organiza esta informação ao longo do caso. A VetNoa atribui aos dados disponíveis um nível de alerta — Estável, Vigilância, Alto ou Crítico — e mostra que sinais vigiar. Sugere tratamentos pelo nome, sem doses, como sugestões para a equipa avaliar.

O produto atual não faz predição nem previsão. A predição é um objetivo separado, de investigação e validação. As leituras são periódicas e podem ter erros ou lacunas, por isso a VetNoa não substitui os alarmes contínuos do próprio monitor. Tanto o monitor como o paciente continuam a precisar de avaliação direta.

Perguntas frequentes

Um copiloto substitui o profissional responsável pela anestesia?

Não. A avaliação, a decisão e a intervenção continuam a ser responsabilidade da equipa. Observar o paciente e prestar cuidados continua a caber às mesmas pessoas, com ou sem software.

A VetNoa deve substituir os alarmes do monitor?

Não. Deve ser apresentada como apoio complementar. A VetNoa lê o monitor de forma periódica, por isso não substitui os seus alarmes contínuos. Os recursos do próprio equipamento continuam a ter de ser usados e bem configurados, seja qual for o outro sistema em uso.

Um aviso do software significa que o diagnóstico está confirmado?

Não. Pode indicar uma alteração, uma inconsistência ou uma hipótese a verificar. A interpretação depende da qualidade dos dados e da avaliação clínica.

Se não há aviso, podemos concluir que está tudo bem?

Não. Podem faltar dados, a captura pode ter limitações ou o sistema pode ter deixado escapar um acontecimento, tudo isto sem qualquer aviso. A ausência de aviso não confirma normalidade.

A VetNoa prevê complicações?

Não. O produto atual não faz predição nem previsão. A capacidade preditiva é um objetivo separado, de investigação e validação. Demonstrar que se consegue prever complicações exige mais do que organizar dados e analisar tendências.

Como devemos avaliar a utilidade de um copiloto?

Pela qualidade dos dados e pela pertinência e clareza da informação apresentada, e pelo desempenho demonstrado no contexto em que é usado. Benefícios como menor carga de trabalho ou melhores desfechos têm de ser avaliados antes de alguém os presumir.

Referências

  1. 1.Mindray. ePM 12M Vet patient monitor, operator's manual. Chapter 6: Alarms. mindray.com
  2. 2.Grubb T, Sager J, Gaynor JS, et al. 2020 AAHA Anesthesia and Monitoring Guidelines for Dogs and Cats. J Am Anim Hosp Assoc. 2020;56(2):59-82. Section: Physiologic monitoring. aaha.org
  3. 3.Teixeira LG, Martins LR, Schimites PI, et al. Peripheral perfusion index does not accurately reflect hypoperfusion in healthy dogs undergoing elective ovariohysterectomy. Vet J. 2018;240:27-30. doi.org/10.1016/j.tvjl.2018.09.003